quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Não à Indiferença


Aqui fica um pequeno excerto de uma crónica da autoria da professora Paula Rodrigues, que nos apresenta o seu olhar atento na busca de absurdos humanos - pessoas cada vez mais indiferentes na indiferença urbana.

" (...) A seguir à ribeira que ladeia a nova ponte (e que abre portas para mais um sinal da forte modernidade deste século em plena evolução - o TGV), lá se encontrava ele - um animal - este especial pela sua singularidade. Já vão saber porquê.
Era branco, um branco imaculado. Mantinha, embora, toda a candura e pureza da sua cor. Escorria-lhe pelo dorso, a água gelada deste dia de Inverno. Em pé, pescoço flectido, olhos mortos, ausentes, fixos no chão, ou quem sabe, em lugar nenhum, abandonava-se ao seu estado de dor e profunda tristeza. A posição dos membros deixava antever a dor da humilhação e do abandono, para lá das outras dores físicas e do cansaço. Junto aos seus quadris fundos, sobressaíam uns ossos cobertos pela alvura do pêlo molhado. Junto ao rosto caíam-lhe duas manchas profundas e escuras, de lágrimas negras que já lhe perfuravam a carne e abriam duas longas feridas.
Ali, abandonado à sua triste sorte e amarrado à corda da indiferença que lhe envolvia o pescoço, rendeu-se, impotente ao destino que o Homem lhe deu.
(...)"

Paula Rodrigues, in Não há Indiferença, 4 de Janeiro de 2009

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